segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Armazéns Grandela



"A divisa dos Armazéns Grandella era “ (…) Sempre por bom caminho e segue! É a nossa divisa; com ela pensamos morrer, e oxalá os nossos sucessores nunca a alterem”.

Em 1879, o primeiro caixeiro Francisco Grandela, então com 26 anos de idade, estabeleceu-se por conta própria num pequeno estabelecimento de duas portas na Rua da Prata. Contou com a ajuda de um amigo que lhe emprestou os 250 mil réis necessários para pagar os 100 mil réis do trespasse e os seis primeiros meses de renda. Enquanto um outro amigo, carpinteiro, lhe fazia a armação da loja, percorria armazéns, escolhia e pedia amostras de fazendas, punha-lhes etiquetas e juntava-as às cartas que escrevia a pessoas conhecidas e outras de quem obtivera o endereço, convidando-as a encomendar um corte de fato ou um corte de vestido.

Chegou o dia da inauguração do estabelecimento, baptizado de Fazendas Baratas e Grandela tinha já realizado 400 mil réis de vendas por encomenda.

Negociando ao balcão, expedindo encomendas, Grandela chegou a 1881 com o capital necessário para saldar a dívida dos 250 mil réis e para tomar de trespasse uma casa mais ampla, no Rossio, a que chamou Loja do Povo.

Pintou a fachada e a armação da loja de vermelho. Introduziu novas técnicas de venda, como o anúncio comercial, a garantia do produto, com possibilidade de troca ou reembolso do dinheiro, a entrega ao domicílio e o sistema de venda a preço fixo. Os jornais da época publicavam grandes anúncios da loja, escritos com humor pelo próprio Grandela, os quais ocupavam por vezes uma página inteira. Cinco anos mais tarde, em 1886, a Loja do Povo não chegava para tanta clientela e encomendas o que obrigou à aquisição de outro estabelecimento, na Rua do Ouro. O Novo Mundo, o maior então na capital. O serviço da entrega de encomendas em Lisboa, na década de 90, era feito por oito carroças e um grande automóvel.

Ás críticas, Grandela respondia à letra, com anúncios colocados à porta da sua loja.

O sonho de Francisco Grandela era reunir as lojas de venda, os escritórios e os armazéns, espalhados por vários pontos da cidade, num só edifício, como os grandes armazéns de Paris. Em 1890, só com o seu capital, adquiriu por 70 contos o prédio inteiro ao lado da sua loja, na Rua do Ouro, hipotecando o local e as benfeitorias para construir de raiz o novo estabelecimento. Entretanto, desalojado da loja do Rossio pelo seu primeiro caixeiro, que de conluio com o senhorio, o visconde da Graça, registou o nome da Loja do Povo e tomou esta de arrendamento, Grandela, utilizando unicamente o seu nome, viu-se obrigado a abrir a nova casa, os Armazéns Grandela, em 1891.

Na viragem do século, os Armazéns Grandela, com as suas 40 secções, ofereciam ao consumidor uma larga variedade de artigos acessíveis a todas as bolsas. No dia 15 de Abril de 1901, a inauguração da estação de Verão “foi uma festa da moda, e a ela concorreu tudo o que Lisboa tem de mais elegante”.

Grandela decidiu ele próprio fabricar e até, como escreveu, “(…) para justificar o milagre porque vendemos barato”. Instalou as primeiras fábricas em S. Domingos de Benfica para a produção de malhas, lanifícios, fiação de lã e algodão, luvas, perfumaria, móveis de ferro, etc. Equipou-as com a maquinaria mais moderna, contratou técnicos no estrangeiros, e em pouco tempo os cerca de 200 operários produziam a preços mais baratos, segundo os preceitos mais modernos, todos os artigos de malha que em elegância, gosto e acabamento igualavam os produtos importados.

Os grandes armazéns democratizaram o comércio da moda, pouco a pouco impuseram ao conjunto da população os seus modelos de vestuários, os seus gostos através de campanhas de publicidade, nomeadamente dos catálogos.

No Bairro Grandela também muitas famílias, especialmente as mulheres que durante o dia trabalhavam na fábrica, faziam serão nas suas casas, à luz do candeeiro de petróleo, costurando as peças que já traziam talhadas das oficinas.

Francisco Grandela procurou, desde o início, desenvolver o negócio para as províncias, pois tinha a certeza ser este “um dos melhores meios de propaganda para o desenvolvimento geral da casa”. Contratou em Paris uma pessoa habilitada – Joaquim da Cruz Leiria, que trabalhava na secção de expedições dos grandes armazéns Printemps – para vir organizar o serviço de vendas por correspondência e a sua última inovação: a publicação de catálogos. Com tenacidade, o novo chefe da secção de Província conseguiu negociar nas repartições dos correios e nas dos caminhos-de-ferro o estabelecimento do serviço de reembolso, não só para o comércio em geral, como para o próprio Estado. Organizou a secção que empregava cerca de 50 pessoas, na maioria mulheres, por concelhos, aldeias e freguesias e dentro de pouco tempo, ele “estava senhor da população do continente, ilhas e colónias, para as suas expedições regulares e constantes”.

Os catálogos que se distribuíam gratuitamente pelo Continente, Açores, Madeira, África Ocidental e Oriental, Índia e Brasil excediam os 2 milhões de exemplares por ano.

Em 1903, adquiriu um prédio na Rua do Carmo, que pelas traseiras ligava com o edifício da Rua do Ouro, deitou-o abaixo até aos alicerces. O novo edifício de dupla fachada quer no conjunto formava 11 andares – 6 pisos a contar da entrada da Rua do Carmo – com uma estrutura de ferro, foi construído pelo empreiteiro João Pedro dos Santos, segundo projecto do arquitecto francês Demay, o mesmo que tinha projectado os armazéns Printemps, e que o engenheiro Ângelo de Sarrea Prado soube interpretar no acompanhamento da obra. Em Abril de 1907, o majestoso edifício – uma audácia arquitectónica para a época – era finalmente inaugurado e como o próprio diz: “(…) obra gigantesca, atrevida, pouco vulgar e cuja riqueza, elegância, gosto, reverbero de luzes, de cristais, dourados de capitéis, colunas de mármore, faz lembrar um conto de fadas, uma lenda das Mil e Uma Noites!”. Lisboa dispunha dos “mais lindos armazéns de toda a Península e também os maiores”.

A fachada da Rua do Carmo era encimada por um magnífico relógio, onde duas figuras de ferreiros batiam as horas, guarnecido pelas figuras míticas da Verdade e do Comércio. Nas colunas entre as portas, foram esculpidos na cantaria medalhões com a divisa da casa: “Sempre por bom caminho e segue”.

Uma escadaria nobre prolongava-se em galeria, da loja da Rua do Ouro até ao 3.º andar da Rua do Carmo, ao longo dos seis andares destinados à secções de venda e confecção. Três conjuntos de escadas amplas davam vazão para a rua, além de outras que ligavam todos os pisos entre sí. Um elegantíssimo elevador eléctrico, destinado aos clientes, ligava todos os andares. O monta-cargas ligava todas as secções, transportando fazendas de umas para as outras. As secções de Província e de Expediente achavam-se em contacto com todos os andares do edifício por outro elevador. A comunicação entre as várias secções era ainda facilitada pela central telefónica instalada.

Os pavimentos do subsolo da Rua do Carmo foram destinados aos depósitos. Os últimos pisos, a partir do 7.º andar, ficaram reservados a escritórios, secções de Atendimento, Promoção, Distribuição e Encomendas, instalações dos empregados, sala de jantar, e residência do próprio comerciante e da sua família. No piso da entrada da Rua do Carmo, o “andar nobre da casa”, ficaram as sedas, as fitas e as rendas. Novidade era a secção dedicada à fotografia. Com venda de material e câmara escura para experiências gratuitas, o Grandela pôs a arte fotográfica ao alcance de todos. O 8.º andar foi quase todo consagrado à secção de Província e à de Publicidade.

A última ampliação dos armazéns data de 1913, comprara-se outro prédio na Rua do Carmo, onde se instalavam os Armazéns Alcobia e outro na Rua do Crucifixo, para onde se transferiram os escritórios e as secções de expediente.

Em 1907, os empregados dos Armazéns Grandela seriam dos poucos, em Portugal, a beneficiar do descanso dominical e de assistência médica gratuita no local de trabalho. Descontavam uma quota mensal, proporcional ao ordenado, para a Caixa dos Socorros. As multas revertiam para o fundo e Grandela concorria também com uma parte. Os empregados de escritório beneficiavam ainda de uma semana de férias pagas. Os operários da fábrica tinham uma caixa de socorros nos mesmos moldes.

Chegou a Primeira Guerra Mundial e com ela a crise económica. O conflito que julgou durasse meses, prolongava-se. Ao contrário de muitos comerciantes que enriqueceram à custa da guerra, Grandela perdeu dinheiro. Proibiu “expressa e até violentamente que em sua casa os preços fossem alterados” combater o açambarcamento e a especulação dos preços, pôs a sua casa ao dispor do Governo para o racionamento na venda de géneros de primeira necessidade pelos preços de custo.

Os stocks iam desaparecendo e aquando da sua substituição, eram adquiridos 15 e 20 vezes mais caros. Na esperança que a situação cambial normalizasse, foi adiando os pagamentos até à altura em que os credores o exigiram, acrescidos de juros. A crise instalava-se. A exploração das fábricas foi interrompida. Para sortir convenientemente as secções de mercadorias, teve de recorrer pela segunda vez, à banca. Hipotecou os imóveis, levantando 5 mil contos.

Em 1916, Grandela transformou os armazéns em sociedade por quotas, a firma Grandela & Cª, associando-lhe os empregados que o acompanhavam havia mais de 20 anos. Com esta medida, procurava dar continuidade à sua obra e assegurar que o filho Luís Grandela fosse o seu único sucessor.

Em 1932, a administração de Grandela & Cª passou a ser exercida por um delegado do Banco Porto Covo & Cª que adquiriu posição privilegiada entre os accionistas. Três anos depois, em 1935, a Condessa de Porto Covo era a única proprietária da firma. Francisco Grandela já não assistira ao fim do projecto que levara mais de 50 anos a construir, pois morrera um ano antes, em 1934.

Numa altura em que a esmagadora maioria das casas comerciais do País não passava de pequenas organizações de tipo pouco mais que artesanal, Francisco Grandela, foi nas palavras de Carlos Fernandes, ele próprio comerciante também, “o herói máximo do arrojo e da iniciativa comercial em Lisboa”.

CONCLUSÃO


Em jeito de conclusão podemos dizer que a memória Histórica perdurará no que toca a estas mentes empreendedoras que foram os Fundadores tanto dos Armazéns do Chiado como Grandela.

Estes Fundadores tiveram suficiente visão de futuro, sabiam que era desta foram que Portugal recuperaria e investiram forte para conseguir servir a sociedade do seu tempo.

Não importa as cores políticas de cada um. O que importa aqui realçar é que tanto Grandela como os Irmãos Nunes dos Santos conseguiram criar dos maiores Centros Comerciais da época e certamente no que toca aos dois Armazéns, os maiores da Península Ibérica.

É motivo, sem dúvida, de orgulho para a História de Portugal, e mais especificamente no que toca à História Urbana, neste caso da nossa Capital, que possamos manter viva a memória desses senhores e dos seus empreendimentos.

Oxalá nos tempos que hoje correm, existirem outros Grandelas e Nunes Santos que investissem na nossa economia. Creio que Portugal poderia ganhar muito seguindo o exemplo dos Fundadores dos Grandes Armazéns do Chiado e Grandes Armazéns Grandela.

I

Bibliografia

A.A.V.V. – Grandela e o Comércio de Lisboa: As inovações numa sociedade tradicional, in Grandella, Maria Goretti Matias, CML, 1994

ARAUJO, Norberto – De S. Domingos ao Chiado. In: Peregrinações em Lisboa; Lisboa: Parceria António Moniz Pereira (1938), p. 87-90

FERREIRA, Hélder Godinho Silva – Armazéns do Chiado: 100 anos. Mafra: ELO, 2001"

in http://portugal1143.wordpress.com/ por David Garcia

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